Durante toda a vida vemos partir pessoas. Habituamo-nos a despedidas de pessoas que são ou foram significantes na nossa vida. Familiares, amigos, conhecidos, figuras públicas… todos partem. E nós permanecemos.
Vemos partir os avós, os pais, outros familiares, o cônjuge ou parceiro (ou parceira) de uma vida, por vezes ate filhos (uma crueldade inumana para qualquer pai e que abre uma ferida que nunca mais sara!).
Vemos partir, porque aceitamos que a morte é uma consequência da vida. Nuns casos a partida é precoce, noutros tardia. Nuns casos é repentina, noutros é esperada por muito tempo e prolongada até por tempo demais, medido em sofrimento de quem agonia na despedida, numa outra forma de crueldade da biologia para connosco.
Vemos partir e passamos a considerar normal que assim seja.
Mas não somos eternos. Permanecemos aqui neste percurso instatâneo, medido na escala relativa da antiguidade du universo, não para sempre, embora por vezes queiramos parecer que assim será. Vivemos inebriados como se a nossa vida seja eterna… na terra! Qual patetitce...
Permanecemos e criamos a ilusão de que só os outros partem. Criamos o hábito de nos despedirmos de quem parte.
Vemos partir sem saber quando outros no verão parti a nós. E sem sabermos quem estará ao nosso lado e quem virá para se despedir de nós e dizer-nos o quão importantes fomos na vida de uns quantos.
Criamos o hábito - quase o ritual - de nos despedirmos de quem parte.
Habituamo-nos a despedir-nos dos outros. Achamos que a nossa hora vem longe.
Mas é apenas uma ilusão.
Um dia alguém se despedirá de nós. Não há volta a dar. Desejamos que venha ainda longe o dia, mas a verdade crua, dura, incontornável está aí, todos os dias: cada dia a mais que vivemos é um a menos perante os que temos para viver.
Nem todos terão a sorte de partirem rodeados dos seus. As pessoas desligam-se umas das outras mesmo quando dizem que estarão sempre e para sempre connosco. E não o fazem necessariamente por mal. Simplesmente, outras prioridades emergem. É a vida a acontecer.
Algumas vezes, mais tarde, religam-se, noutras não.
Quantos avós anseiam por uma visita e um beijo ou um abraço dos netos queridos, por quem tanto se esforçaram? Quantos pais são despejados em “depósitos” junto com outros como eles, ou mesmo “abandonados” na solidão das suas casas que outrora foram o centro da vida em família? E depois de descartados pelas famílias ficam para ali a fazer tempo, um tempo que não passa porque os dias são todos iguais e solitários…Quantos esperam e desesperam, num silêncio sofrido, por visitas que tardam ou vão sendo cada vez mais esporádicas? Quantos sofrem com isso e, quando são finalmente visitados, nada cobram, antes apenas agradecem as migalhas que lhes atiraram e que nunca são eficazes a eliminar o fastio de quem já se habituou a não ter esse alimento imaterial que provém dos afetos filiais?
Quantas vezes lamentamos não termos feito mais? Não termos feito melhor? Não termos sido sequer suficientes? Não termos cumprido os mínimos olímpicos?
Do que podemos e queremos abdicar para estar com quem é sangue do nosso sangue e a origem da nossa existência?
Quantos de nós tomamos a decisão de passar uma tarde ou uma noite com os nossos pais ou avós, escolhendo-os em vez de uma saída com amigos ou namorados ou maridos ou apenas para ficar em casa porque alegamos precisar de descansar? Uma visita, tempo de qualidade, um carinho, saber escutar mesmo quando impera algum silêncio, ao seu ritmo… Vale tanto para eles, devia valer o mesmo para nós. É respeito, é cuidado, é dignidade.
Quantas pessoas respeitam a vida dos seus pais, avós e bisavós ao ponto de, pelo menos em vida, lhes cederem regularmente uma porção do seu finito e muito valioso tempo, tantas vezes erradamente considerado demasiado precioso para ser gasto com quem já nada espera senão a partida?
Quantos honram a vida que receberam, que recebemos?
Quantos telefonam para saber mais do que apenas o “estás bem”?
Quantos escutamos em vez de preferirmos trocar palavras de circunstância?
Quantos largam as tecnologias para estrarem verdadeiramente presentes quando visitam quem tanto ansiava por uma visita?
Quantos afagamos o rosto e beijamos a face enrugada de quem se deixou enrugar por fora mas mantém a suavidade interior que teima nunca deixar partir, num gesto de amor altruísta que deveria ser inspirador e fonte de exemplo para nós?
Um dia partem os nossos mais queridos, aqueles que foram muito importantes na nossa vida, aqueles que nos ensinaram a ser quem somos, ou aqueles que caminharam connosco uma parte essencial da nossa existência.
E, nessa altura, alguns lamentaremos não termos dado tempo e atenção e afetos e beijos e abraços e mimos a quem tanto o merecia. E não tanto como o mereciam.
E chegará, então, também o nosso dia. De certeza que todos (espero eu) desejam partir com suavidade, sem sofrimento, de mão dada com quem nos ama, rodeados de quem amamos e que achamos que nos amam também.
Deixar partir…
…porque um dia também nos deixarão partir. Não é negociável.
Muitos de nós não pensam neste tema como um assunto presente. E acham que quem reflete sobre isso tem algum problema por resolver e só pode não estar bem. Muitas vezes está tudo bem, mas até nem faz mal não estar bem, o que sempre sucede a todos nós.
Como quer que seja a sua partida? E o que faz para que seja diferente daquela que foi a de muitos dos seus, que deixou partir sem ter tempo para estar ali, naquela hora, durante aquele tempo em que partimos para sempre e sem voltarmos cá nunca mais?