terça-feira, 24 de julho de 2018

#073 Nudez de alma


É aqui, no espaço da escrita, entre truques que já vou dominando e que me permitem deixar expressas algumas verdades absolutas e insinuadas outras tantas ou ainda mais, veladas e incapazes de naturalmente transbordarem e se auto-revelarem ejectando-se de mim, que me dispo perante o mundo e me exponho em nudez de pensamento e de alma.
No dealbar do meio século de vida ainda me parece incrível como sei tão pouco sobre o mundo. E sobre os outros. E sobre a vida. E sobre mim. E sobre a forma como permito ou não permito que o mundo me conheça e me observe, sem julgamentos, sem análises baseadas em ciências balofas e teorias da treta. Na verdade tudo pode ser simples. Tudo deveria ser simples. Tudo tem, por defeito, a sua forma de se encaixar no mundo. Não deveria haver espaço a intolerância, ódio, desprezo, vingança, julgamentos, rótulos. As convenções sociais, as normas de convivência em sociedade, os valores impostos pelas religiões, os conservadorismos atávicos, os dogmas que asfixiam, os juízos precipitados que mantêm aprisionadas almas livres, que nasceram para serem livres e para apenas se deixarem aprisionar por quem e pelo que querem, as incompreensões que cerceiam o melhor que há no coração de cada um, são a raiz de grandes problemas, desavenças, sofrimento físico e psíquico, depressões, suicídios, vidas normais falhadas…
Uma flor que germina, um pássaro que canta, uma criança que ri, um velho que exibe orgulhosamente as suas rugas repletas de histórias, um livro que encanta, uma música que exalta sentidos, um cão que pede um mimo ao seu dono, um filme que emociona, um riacho vigoroso que serpenteia vale abaixo, onde encontra um rio caudaloso e este cede imponência ao oceano repleto de vida e mistério, um corpo que nos faz vibrar, uma lágrima a pedir que encontre um ombro onde possa desaguar em alento, o refugado da nossa avó, a carícia da mãe e o abraço do pai, que ainda ontem nos ensinava a andar de bicicleta e a dar os primeiros pontapés numa bola, alheio à identidade que é só nossa, porque é individual, única, irrepetível, singular, seja lá em que sentido for.

Todos merecemos ter momentos de genuíno prazer, de sorriso e gargalhada, para contrabalançar com as lágrimas e azedumes, as dores e os sofrimentos, a doença e a fatalidade, a perda e a rejeição.
Isso não tem nada a ver com ser ou não ser mainstream. Isso não tem nada a ver com pré-concepções que conduzem a incompreensões caso o resultado seja o nosso “desvio” face à norma. Podemos ser clássicos e capazes de romper com as normas, cumpridores de deveres de cidadania e de civilização e ousar desafiar as convenções, viver dentro da sociedade e fora do padrão, obedecer a leis civis mas desafiar as da natureza. O resultado final que todos procuramos é a felicidade e essa pressupõe aceitação, integração, normalidade ainda que fora do conceito amplamente definidos como normais.
Eu acredito. E acredito que a vida só nos é dada uma vez, para ser vivida com sal e pimenta, açúcar e limão, azeite e vinagre, vinho e água, tudo a seu tempo. E que nesse ensaio fugaz sobre a vida temos de saber desempenhar o nosso papel, vestindo a nossa roupa e agindo com integridade, honra, orgulho e esperança.
Vamos deixar que a vida se ria de nós ou vamos rir com ela?
Vamos continuar na nossa zona de conforto ou vamos desafiar tudo e lutar por viver ainda mais felizes?