terça-feira, 8 de maio de 2018

#072 Meio Século, meia vida?

Este ano completo meio século de existência. Já os 50? Sim, parece que sim. Quando era miúdo, na inocência dos meus dias sem rotinas e sem responsabilidades, costumava ouvir os adultos dizerem para aproveitar bem a minha mocidade porque, em menos de nada, a vida passaria por mim, veloz e sem piedade. Na altura eu duvidava destes conselhos avisados e destas sábias palavras, talvez por inocência, talvez por apenas não ter de me preocupar com isso.
Havia toda uma vida pela frente. Imensa, quase infinita, por mais que sempre todos saibamos à partida que a vida tem um fim. Porém, à partida consideramos que esse fim ainda vem muito longe e a esperança de vida em pequenos tende para o infinito.
Quando eu era ainda um catraio de calções com peitilho, que fazia da cidade toda o seu quintal de diversão, metendo conversa com todos e com todas pelas ruas estreitas da cidade a que chamo e quero chamar “minha”, a doce e fresca Abrantes, as pessoas com 50 anos de idade eram velhas. Muitas eram mesmo já velhas. Há pessoas que nunca conheci novas e que me acompanharam durante mais de 40 anos, morrendo nos seus noventas, o que significa que quando as conheci, já velhas, eram da idade que completo este ano, mais coisa, menos coisa.
O que quero aqui afirmar é que não sou velho. Recuso-me a ser velho. Ainda sou o menino traquina que brincava pela cidade inteira, que passava as tardes de verão na velhinha piscina municipal, entretido pelas diabruras da mocidade e pela beleza da adolescência, onde a inocência dava lugar a atrevimentos ainda semi-inocentes mas onde fazíamos descobertas sobre o corpo, sobre a vida, sobre o futuro, sobre o cosmos e o universo, sobre a dimensão do mundo, que se abria e ampliava, sobre a liberdade, que se acabara de conquistar e havia que consolidar-se.
Viver os anos 70, 80 e 90 do século passado na infância, adolescência e primeira idade adulta foi um privilégio absolutamente maravilhoso.
E, no entanto, aqui estou eu, a menos de seis meses de passar a barreira do meio século, esperando que a vida, a saúde, a sorte e os cuidados me conduzam para mais outros 50, preferencialmente com saúde, de modo a poder assistir ao percurso dos meus filhos e dos meus sobrinhos, a poder ambicionar ter netos e mimá-los, a poder ainda dar carinho à minha mãe, pelo tempo que tiver de ser e a viver com nostalgia e saudade as memórias das vivências com todos os que já cá não estão e tanta falta me fazem. Pai…, sinto tanto a falta do meu pai. Caramba! Pudesse eu voltar atrás e havia tanto para lhe dizer. E aconteceu tanto que sei que o meu pai gostaria de ter visto. Quando o meu pai partiu, há 21 anos atrás, estava a meio da década após o seu meio século. Aproximo-me da idade que ele tinha. Espero que demore. Peço para que os dias andem de modo mais vagaroso. Quanto mais devagar eles andarem menos próximo estarei do meu fim, venha ele quando tiver de vir. Só espero estar preparado para lidar com o fim da minha existência e não ser um cobarde choramingas, um medroso acagaçado, um mariquinhas que não sabe lidar com sofrimento, dor e fim. Nunca estamos prontos, acho eu. Poder-se-á estar sereno a ponto de não termos medo de partir? Não sei. Não sei mesmo.
Ainda não é o tempo, ainda não é o momento, repito para mim estas frases convencendo-me de que se as for repetindo por vários anos e décadas, acabarei por não ter de ir. Mas todos temos de ir. E é tão normal que estes balanços sejam feitos por nós, de modo periódico, diria mesmo de modo higiénico, numa autoscopia muito necessária.
Este ano, no dia dos meus 50 anos completos, vou procurar juntar amigos e familiares, celebrar, conviver, recordar, rir, chorar, abraçar, ser abraçado, projectar memórias, lançar novos desafios, fazer balanços, desenhar novas metas, aferir o que já vivi, conquistei e dei de mim aos outros e à vida.

A vida pode ser breve – e é breve, de facto – mas enquanto por aqui andarmos, enquanto a saúde o permitir, enquanto a lucidez nos der alento, vamos continuar. E vamos tentar sempre extrair da vida a essência que confere aroma e sabor e cor e alegria e magia e amor e paz.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

#071 Esquizofrenia ou bipolaridade latente?

Dou o que tenho e caso não tenha para dar atrevo-me a pedir. Para que possa dar-te e possa chegar para ti. Sou generoso, sou doce, sou leal, sou honesto, sou fleumático, sou genuíno, sou bruto, sou simpático, sou uma besta, sou um fofinho. Serei bipolar?
Estas questões do comportamento bipolar nunca me preocuparam até que há dias fui confrontado com a impreparação de pessoa amiga e chegada para me entender. Dizia esse meu amigo que eu flutuo muito e tendo a oscilar entre a generosidade diletante e a agressividade cáustica, corrosiva, imprimindo alternadamente um misto de mel com fel. Na verdade o que separa estas duas palavras é apenas uma letra mas é precisamente essa letra do alfabeto que, sendo uma simples alteração, transfigura todo o sentido da palavra.
Se calhar sou. Tenho de o admitir. Nem que para o admitir tenha de ser a única pessoa bipolar na minha escala de afetos e cumplicidades.
Por vezes basta um dia soalheiro, uma brisa morna ou o chilrear de um pardal, ou até apenas a mancha verde de uma paisagem ou o murmulhar das águas de uma ribeira, que corre incessante no seu vagar resiliente, tendo como destino final o mar, essa imensidão onde se confunde a vida com o negrume das profundezas, esse depósito de bipolaridade onde coabitam os corais com os tubarões vorazes, os cardumes que dançam água fora com as orcas, as oxigenantes algas com os plásticos e detritos gerados por esta Humanidade insensível e insensata.
E depois o bipolar sou eu?!?
Posso até ser mas, na minha ingénua e patética forma simples de ser, encontro comportamentos bipolares todos os dias, em quase todas as circunstâncias, provenientes de quase todas as pessoas.
Talvez isso não seja, afinal, bipolaridade. Nunca tive uma depressão mas posso estar triste e sentir-me transitoriamente deprimido. Posso estar contente e motivado mas raramente fico eufórico com os meus feitos. Creio que aqui está claro que não me acho, afinal, bipolar.
O meu cérebro e as sinapses que ocorrem no contacto interconectivo (título do blog) entre os neurónios que abundam em mim podem ter sofrido transmutações ao longo dos tempos. Mas não creio que seja bipolar.
No fundo, bem lá no fundo, o que eu quero é agradar-te, é dar-te o que tenho e o que não tenho. Mas se me irritares, tiro-te tudo e não te dou nada. Sou generoso mas posso e sei ser cruel. Lido mal com as injustiças e isso transfigura-me, leva-me para o pólo oposto da serenidade e da normalidade.
Afinal sempre oscilo entre o eufórico e o deprimido. A culpa não é minha: é por ti e por tua causa que me altero. Se calhar a minhã não-bipolaridade é falsa e quando sou bipolar talvez apenas seja a consequências dos estímulos, da reação a ti e às tuas atitudes e comportamentos. Posso amar-te tanto quando te posso desprezar. Posso querer comprar a lua para te dar e em seguida não pretender sequer ver-te. Mas quando quero e posso e sei que vou dar, dou o que tenho .
Sabes porquê?
Não?
Nem eu.
Há pouco sabia. Agora já não sei. Serei bipolar? Estarei a ser atacado pelo sacana do alemão que me rouba a lucidez? Será que ainda sei distinguir o que é real daquilo que é ficção ou realidade ficcionada? Já não tenho idade para esquizofrenias. Se calhar estou apenas a ficar paranóico. Mas a paranóia não é o mesmo que esquizofrenia? Ou uma decorrência desta?
Não, estou absolutamente bem. Sou apenas mais um cidadão normal deste mundo, que por ele vagueia com um propósito muito claro. Qual é? Bem, se calhar ainda não o defini e ele não será assim tão claro. Umas vezes é, confesso. Outras, nem por isso.
Será que sou bipolar, esquizofrénico ou apenas um estúpido e idiota chapado?
Ou será que sou apenas uma pessoa normal a pretender brincar com um assunto sério, a ludibriar quem me lê? Olhem, não sei. Afinal, qual foi o motivo para o início desta escrita?
Alguém me ajuda? Não, aqueles ali não, porque estão a olhar de lado para mim e um deles tem mesmo ar de quem me quer matar. Há tanta gente que me persegue. E eu não sei porquê. Sei lá eu o porquê...
E depois, aquele outro grupo ali, está-se mesmo a ver que são gente preconceituosa. Só porque tenho uma camisola de lã vestida e estou aqui sentado com 30 graus secos e sem brisa, já estão só a criticar-me, a tentar adivinhar o que vai na minha cabeça.
Não vai nada. Só vais tu, meu amor, sejas lá tu quem for. Sim, porque tu não existes, és apenas uma criação artificial da minha mente, um entretém para que eu esteja ocupado a fazer de conta que tenho uma vida normal e que existe alguém para quem eu dou tudo o que tenho e caso não tenha para dar atrevo-me a pedir. Porque nem só os outros podem ter vidas simples e normais. Eu também quero e quando quero muito, eu tenho.
Sou normal, não sou?

domingo, 22 de abril de 2018

#070 Vida normal, ou anormal?


A vida das pessoas normais, as pessoas que são mesmo normais, as pessoas que circulam na rua e são tantas vezes invisíveis, as pessoas comuns, como nós somos, não tem de ser normal. Muitas vezes não é mesmo, de todo. Repara em nós: somos pessoas comuns, somos frequentemente invisíveis na multidão, e temos entre nós dois tanto em comum, logo nós que somos ambos seres normais, diria mesmo normalizados; sabes seguramente do que falo.
A tua vida e a vida que existe em mim não são nada mais do que vidas banais e normais. O que nos distingue é a tua inteligência. Bom, na verdade é também a tua beleza física. Se for perscrutar adequadamente tudo em ti é melhor do que qualquer atributo físico ou intelectual meu. É por isso que te adoro. Porque és normal e, sendo normal, és tudo menos normal.
O que significa, já agora, ser-se normal? Quem tem a autoridade e a força para decretar o que é normal e o que não é normal? A quem foi investido o poder de decretar o que cai dentro e o que cai fora das normas?
O teu cabelo loiro, juntamente com os teus olhos verdes, os teus lábios carnudos, os teus seios leitosos e as tuas formas torneadas não são normais para mim mas são o teu normal e são a normalidade de muitas pessoas que, como tu, foram abençoadas com a perfeição do corpo. É normal que a beleza física seja mais relevante do que a beleza interior? É, isso sempre sucede no início das relações normais, que despertam com o desejo, o erotismo, a sensualidade e a consumação dos corpos que se fundem um no outro, com normalidade ainda que com intensidade ofegante, mesmo que em gemidos e sufocos, entre contorções e exalação de prazeres. Se isso for a anormalidade pois então que vivamos como anormais. Mas não, isso é a normalidade.
Tudo na vida das pessoas normais pode ser sintetizado a processos simples, normais. E, por mais que tenhamos dificuldade em descortinar a normalidade do outro e ela nos pareça tudo menos normal, havemos de normalizar os fenómenos.
Há uns anos a vida era toda mainstream. Tudo era feito de modo normal: os casais sentiam atracção, física, ou intelectual ou ambas, casavam, procriavam, trabalhavam, de pais ficavam avós e raramente ousavam pensar no lado mais oculto da vida: isso seria uma anormalidade. Hoje em dia tudo parece ser normal. A quem interesse saber se a vida que levamos é normal?
Quando estou contigo e tu se me dás, e eu me dou a ti também, considero que é uma anormalidade normal ou uma normalidade anormal? E o que é isso de normal e não-normal, ou mesmo anormal? Quem pode dizer o que é o certo e o que é o errado?
Se a vida normal for uma chatice, uma monotonia, uma adição de rotinas cansativas e desgastantes, então não quero ser normal. Por mais que eu seja, à luz de todos, uma pessoa normal, quase sempre anónima, ignorada na multidão, invisível aos olhos dos outros.
Só espero que aos teus olhos e no teu juízo, esta pessoa normal possa ser, pelo menos especial, única, isolada, proeminente, relevante. É isso que vamos procurando, é essa a base necessária para sermos normal, ou anormalmente, felizes um com o outro.

#069 Saber amar

Um dia vais ficar a saber. Prometo. Chegará o dia em que, sem que estejas à espera, vais ouvir da minha boca, finalmente, aquilo por que tanto anseias.
Sim, eu sei que há muito esperas que te diga que te amo, que te quero, que és o centro do meu mundo. Mas o que tu não sabes ainda é que és tudo isso e muito mais. Não lido bem com as oralidades, o frente a frente deixa-me desconfortável, as palavras não me saem como as quero dizer e a garganta não consente que exteriorize, que manifeste, que torne público o quanto te quero e te amo.
Sim, eu sei que não deveria ser sim. Deveria eu ser capaz de dizer com a mesma melodia com que escrevo...
Sabes que a escrita pode ter melodia na foma como ordenamos as letras e as palavras, no modo singelo como jogamos com a cadência do pensamento, na forma ordenada como lideramos o pensamento dos outros e os condicionamos para que encontrem as emoções que procuramos estimular e experimentem as sensações que quem escreve também está a sentir?
Sim, eu sei que tudo não passa de desculpas e que tu preferias que eu escrevesse menos sobre afetos e fosse mais generoso nos ditos, mais atuante ou, como se diz agora, mais proativo.
Sim, eu sei que um "eu também" é pouco quando o que recebemos é um sonoro e expressivo "Amo-te até ao infinito".
Um dia vais perceber que não te amo menos.
Um dia vais mesmo saber.
Nada menos do que isso. O difícil é que isso saia naturalmente de dentro de mim.
Quem sabe se é hoje que encontras a minha escrita dispersa pela casa, escondida nas gavetas onde a arrumo, juntamente com tantos outros pensamentos?
Seja como for, hoje ou depois, um dia vais ficar a saber

#068 Meço as Palavras

Meço as palavrasmeço o que digo, meço o que te digo. Não meço os sonhos. Os sonhos que eu sonho, a dormir ou acordado, são sonhos ilimitados, incontidos, repletos de vida. É esta vida imensa, intensa e com uma vasta paleta de cores, a vida que convida a viver numa torrente incontida de vida que brota como lava incandescente rumo ao mar.
Meço as palavras antes que me traiam e revelem o que não quero, o que não posso, o que não devo, antes que essas malditas palavras saiam e me atropelem. As palavras depois de ditas não podem ser retiradas do espaço que ocuparam, no tempo em que ocorreram.
Meço as palavras mas nunca os sonhos. Porque os sonhos são desmedidos, por vezes repetidos. Os sonhos são a arma letal com que derroto as angústias e incertezas de uma vida que nem sempre sorri e me brinda com boa fortuna.
Relembro os tempos, os bons tempos...
Eram os tempos em que em nós o sonho tudo permitia. Depois, sorrateiramente, quase sem avisar, vieram as palavras aprisionadas, as meias-histórias, o anuir por omissão, a ocultação do todo expondo apenas a parte que queríamos que fosse vista, sentida, apalpada, saboreada. Finalmente, veio o fosso cavado que marca a indelével impossibilidade de o destino perfeito ter podido concretizar-se. E, com isso, surgiu a resignação, a conformação. A paixão deu lugar à tolerância forçada, o desejo cedeu o seu espaço à habituação orgânica, sem transcendência.
Meço as palavras mas não escondo a tristeza e a frustração. Pudera eu voltar atrás e teria feito diferente. Teria dado mais e exigido menos. Ou teria dado menos e nada exigido. Hoje, nas palavras curtas em que pretendo ajustar contas com o passado, com o meu passado, o teu passado, o nosso passado, o legado que ficou lá atrás, sobre a nostalgia e a memória vívida da pureza desse tempo, esse tempo que não volta a existir, porque o tempo nunca volta, por mais que o tempo seja uma invenção do Homem e não da Natureza, numa vã tentativa de compartimentar a existência. O tempo que criámos e que é finito, desafia a infinitude dos sonhos que não meço e que sonho, a dormir ou acordado.
Meço as palavras. Assim tem de ser.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

#067 Reflexão de Ano Novo

A vida tem os seus mistérios e encantamentos e é tão fácil e tão célere alternar entre a euforia e a melancolia. Contudo, no balanço global posso dizer, sem reservas, que sou um homem realizado e cheio de contentamento, eternamente insatisfeito e, ao mesmo tempo, soberbamente complacente, cada vez menos reivindicativo.
Os anos trazem macieza no carácter, aragens brandas e burilamento das imperfeições e rugosidades da alma e do carácter. A sensação de completude nunca é perene, nem tampouco me sinto saciado ante o que a vida ainda me pode proporcionar no resto de tempo que ainda me conserve vivo.
Mas aceito, simplesmente. E existo, com a mesma aceitação humilde. Desejando a novidade a inovação. Mantendo a via verde dos sonhos sempre aberta para que cada amanhecer e cada acordar possam ser uma experiência desafiadora e refrescante. Apenas isso. E isso, parecendo pouco, é tanto e tão imenso.

#066 Regresso

Talvez volte. Talvez não. Quem sabe?

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

#065 Ministério da Saúde não ata nem desata nos cuidados de saúde primários e Tribunal de Contas arrasa reforma

Há muito que se sabe que este Ministro da Saúde percebe pouco de saúde. Há muito que se sabia que os resultados da própria organização dos cuidados de saúde primários iria piorar. E, a médio e longo prazos, com a sobrelevação dos critérios de custo e contenção de custos e pressão sobre os prescritores por motivos de custo, os resultados em saúde irão piorar (outcomes). - E até agora os outcomes não são critério de avaliação da qualidade organizacional e da qualidade dos cuidados prestados ao doente. - Quando se tenta que os custos sejam a variável mais importante e se ignora o valor terapêutico acrescentado ou a mais recente evidência científica, apenas por causa de custos, é a vida das pessoas que é afetada. - Quando se ignora que uma ou outra opção são mais custo-efetivas apenas porque se pretende poupar no curto prazo, estamos a determinar a degradação dos indicadores de qualidade de vida das populações, no curto, no médio e no longo prazo. - Quando se fixam indicadores de processo e de procedimento e não há muita atenção para os indicadores qualitiativos do estado de saúde das populações, há uma entorse sistémica que é necessário corrigir. - Há muita coisa a melhorar. Mas parece não haver nem vontade, nem lucidez, nem coragem para agir. - Há muito que se sabia da insatisfação de profissionais de saúde e até de dirigentes das organizações de saúde. Uns mais a medo, outros de modo mais declarado. Mas as pessoas sempre vão falando, desabafando, mostrando sinais de cansaço, sinais de fadiga com este clima de intimidação e degradaçãao dos pilares do SNS: acessibilidade, universalidade, gratuidade (lol). Nos cuidados de saúde primários, para além da insatisfação dos profissionais de saúde, há agora vários diretores executivos de ACES de saída para novos desafios profissionais e outros irão seguir o mesmo caminho em breve. - Há meses cortaram administrativamente o seu vencimento (cortando o subsídio de função, que vinha sendo pago desde 2009), depois de sucessivos cortes fiscais, tornando desinteressante a função nobre de dirigir organizações de cuidados de saúde primários. Ainda corrigiram o tiro mas as pessoas, incrédulas, já se tinham mexido para fugirem deste logro que é dirigir ACES quase sem autonomia, minguados que estão de competências, novamente atribuídas à macrocefalia das ARS's. - A reforma pretendida não só estacionou como até, em certos casos, andou para trás: ARS's poderosas, ACES que parecem sub-regiões, coexistência do modelo de ULS que nunca foi avaliado face ao modelo dos ACES, confusão entre integração de cuidados pela governação clínica e integração de gestão por uma única entidade administrativa. - Os equívocos são imensos mas a lucidez dos decisores é pequena. Poderia escrever muito sobre este assunto, de que tenho muito conhecimento de causa. - Poderia ajudar o meu partido, até. Mas se sempre prescindiram do meu contributo é porque de mim não precisam - sabem tudo e estão contentes com o que têm. E estamos bem assim, porque também não sinto saudades nenhumas das sedes partidárias. Mantenho a minha atividade cívica, contiuno a lidar com os cuidados de saúde primários (uma paixão para a vida, uma causa nobre de que me orgulho) e estou longe dos jogos e dos vícios do poder. - Agora foi o Tribunal de Contas quem veio meter "o dedo na ferida". E depois digam que eu sou um "velho do restelo" quando critico as políticas da política de saúde... Há muito que, aqui no Facebook, me insurjo contra algumas barbaridades. Mas parece que há quem assobie para o lado e continue a pensar que ignorar os problemas os soluciona, por passe de magia. Nem com números de ilusionismo. Para quem tiver curiosidade de ler as 644 páginas, fica aqui o link. - Fica também o link para uma das muitas notícias que, desde a noite de ontem, começaram a surgir nos media nacionais: Jornal ionline. - Ainda é possível inverter este desastre de desmantelamento do SNS. Ainda é possível... assim o Primeiro Ministro abra os olhos e decida que quer mesmo fazer alguma coisa para salvar o nosso SNS, mais do que debitar umas blagues da boca para fora, para entreter jornalistas. - Sim, porque do Ministro da Saúde já nem falo - o homem não tem jeito nenhum para a coisa mas julga-se a última coca-cola do deserto.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

#064 Reflexão simples e casual

As notícias dos jornais não deixam espaço para grandes dúvidas: o mundo está mais explosivo do que nunca, desde a Segunda Grande Guerra. À porta da Europa - e mesmo já dentro da "velha" Europa - os sinais de intolerância adensam-se e todos os ingredientes para que a utilização de armamento para dirimir conflitos se realize, estão agora em "bloco", do mesmo lado. É apenas uma questão de tempo: retrocesso nos valores civilizacionais, crise económica e de modelo de estado social, desempgrego, degradação de indicadores de conforto, seja na saúde, na protecção social, na educação, na cultura ou mesmo nos valores e no derrube de velhos estigmas comportamentais. Tudo parece estar em causa, novamente. Os americanos espiam o mundo inteiro e arvoram-se em polícias do mundo. Ninguém gosta de se sentir violado na sua intimidade mas a verdade´é que o mundo se colocou de cócoras perante a América sempre que um novo conflito emergia aqui ou ali, pedindo a sua rápida ajuda. O senhor Snowden é um exemplo de rompimento com esta América falsa e arrogante que nos observa e tutela. Os russos não são melhores. Os ingleses já têm drones. As armanas nucleares estão na posse de vários países e dentro de nada estarão nas mãos de terroristas e extremistas. As fés absolutas e os regimes políticos em que quem manda é qualquer déspota a mando de um suspoto Deus são um perigo. Os retrocessos de valores sobre conquistas efetuadas são preocupantes, como é o caso da anulação da IVG em Espanha. No Quénia conitnuam a imperar os rituas de excisão genital feminina, entre outros pormenores da mutilação sexual considerados banais. A intolerância étnica, o racismo, a xenofobia, a intolerância assumem contornos de extremismo há muito não vistos na Europa e no mundo mais ocidentalizado. As seitas fundamentalistas emergem e associado a estas a corrida a armamento e a poderio militar de ajuste de contas, vingança e auto-denominada justiça em nome de Deus, essa entidade abstracta e inexistente por detrás de quem se escondem ódios e rancores. Até a natureza está zangada: alterações climáticas, cataclismas, fenómenos extremos, morte e devastação. O mundo está, pois, podre. O mundo está efeverscente. O resultado só poderá ser uma catástrofe. Lamento ter de o escrever. Mas vem aí pancadaria e da grossa, dentro da velha Europa, envolvendo todo o Continente.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

#063 Update

Hoje é dia de nada fazer. Feriado Nacional. Dos que sobraram ao "varrimento" político do último ano. Para além do ginásio vou aproveitar para tostar um pouco mais o lombo ao Sol. Mas torna-se necessário (re)preparar material para as aulas de mestrado, é preciso ler, escrever, pintar, ouvir música, saborear a vida nesta silly season repleta de silly facts protagonizados pelos silly people do costume - os atores da política portuguesa.
Ter um blog quase parado é um crime. Tenho escrito imenso, sim, na minha "escrita das gaveats" e no abominável Facebook.

sábado, 8 de dezembro de 2012

#062 Sábado

É Sábado, fim de semana. Levanto-me cedo, como habitualmente, e tento ficar a par das principais notícias. Mais do mesmo, com uma ou outra excepção.
O fiel depositário da moral pública, Medina Carreira, paga o preço por tamanha exposição em prol dos valores e vê-se enredado numa teia complexa. Veremos se tem razão.
Na Austrália, dois animadores de rádio acabam no desemprego depois de simularem que eram a Rainha de Inglaterra e o Príncipe Carlos, por força do suicídio de uma enfermeira que foi enganada no telefonema, que visava saber como estava Kate e a sua gravidez, num hospital londrino.
No desporto nada de novo. O Sporting tenta salvar (mais uma vez) a sua época futebolística ganhando ao Benfica. É assim desde há anos.
A morte de Niemeyer ainda ecoa pelo Globo. Uma perda trágica mas expectável pela avançada idade que já tinha. Fica-nos o seu legado, um património da Humanidade. E fica-nos a sua humildade, simplicidade e genialidade.
Nos ziguezagues xadrez político nacional, continua o festival de descredibilização contínua da classe política, agudizado por uma crise sem precedentes e para a qual parece não haver fim à vista. Um dia querem uma coisa, no outro o seu contrário, por vezes coisa nenhuma e talvez se regresse à opinião inicial. Mas sempre desfasada do que as pessoas têm como expectativa de razoabilidade e bom senso. Pacheco Pereira põe o dedo na ferida, e bem.
Na blogoesfera ainda há quem consiga manifestar ser feliz e realizado em Portugal, como é o caso de Nuno Markl,um prodígio de humor inteligente e estabilidade emocional duradoura.
Vou mas é ao cinema ver o Anna Karenina, inspirado no romance de Liev Tolstoi com o mesmo nome.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

#061 Teste a postar

Ainda saberei postar vídeos? Vamos lá tentar...
Ok. Estamos afinados!

#060 Matina


A vida pode ser madrasta mas também pode ser fada e benemérita, tudo depende dos momentos e do ponto a partir da qual a observamos. Raramente há uma só verdade, absoluta, dogmática, indesmentível. A verdade pode ser complexa e ter várias formas de abordagem e revelação.
Mudar de trabalho pode ser gerador de dúvidas, incertezas, medos, inseguranças, incompreensões ou até mesmo de angústias. Mas, visto por outro lado, pode ser uma oportunidade, uma esperança renascida, uma condição válida para que voltemos a ter prazer no que fazemos.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

#059 Setembro

Já não escrevia aqui neste espaço há muito tempo. O Facebook veio matar a minha vontade de ter um blogue e acreditem que hoje mesmo nem sabia como se chamava o meu blogue.
Depois de pesquisar lá o (re)encontrei.
Também tenho um perfil twitter e outro no myspace e julgo que ainda devo ter um Hi5. Mas para quê?
Para muito pouco ou quase nada. Vivo na era Facebook e reencontrei ali amigos e novos amigos fiz.  zzzzzzzzzzzzzzzzzzzz zzzzzzzzz
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domingo, 23 de janeiro de 2011

#058 Dia de Votar

Acordo cedo, como geralmente sucede. O hábito que o corpo tem de não se prende muito à cama impede-me de ali permanecer para além das 7 e meia. Mesmo assim, já foi meia hora em cima do habitual porque, de semana, a alvorada acontece mais cedo.
Hoje é dia de votar, dia de escolher o nosso Presidente da República.
A mobilização vai ser baixa, presumo e prevejo.
Os portugueses estão saturados de serem sacrificados e de ainda lhes andarem a pedir votos em cima de todas as coisas más que têm sido empreendidas para pagar a conta de um desgoverno constante desde sempre, pelo menos, desde que foi feito o 25 de Abril.
Vive-se hoje melhor, é certo. Mas estamos à beira de voltarmos a viver mal, muito mal.
Sucessivas irresponsabilidades, governantes impreparados, eleitores mal esclarecidos e que tudo consentiram, contribuintes pouco exigentes no que à gestão do seu dinheiro diz respeito, desajuste entre contribuições recebidas e reformas prometidas, entre muitos outros factores, a que se associa o facto ter pouco talento para 'produzir' alguma coisa que gere riqueza, conduziram-nos a este fado.
No meu caso pessoal, além disso, há factores extra que conduzem a pouca esperança no futuro de Portugal, com estes portugueses. Mas, também admito, enquanto há vida há esperança e pode suceder um milagre regenerativo.
Até lá, mais PR, menos PR, é só um ritual no qual já poucos acreditamos que seja muito relevante ou que daí venham dias mais felizes e mais prósperos para todos nós.

sábado, 9 de outubro de 2010

#057 Insónia

Acordo com insónias. Eram 5 da manhã.
Não acordo mal disposto nem deprimido - antes conformado e sem lamúrias. A situação em que o país se encontra não me choca porque não constitui novidade, não me angustia porque era inevitável e não me deprime porque acredito em mim, para além do meu país e acredito num punhado de gente boa e sã que teima em querer ser optimista mesmo que tenhamos de assistir diariamente a um conjunto de energúmenos que nos tomam por tolos e fazem discursos irresponsáveis sobre o Estado da Nação e nos mentem a toda a hora.
Ainda não sei quanto me pretendem "sacar" no ordenado, mas serão mais de 8% por certo, depois de me terem "sacado" 1,5% para o IRS em Julho, dizendo que isso chegava para endireitar Portugal e depois de ter tido aumento 0 em 2010 face a 2009.
Sucessiva e alternadamente, sobretudo desde 1985, temos sido governados por gente responsável (pouquíssimos) e irresponsável (esmagadora maioria), por gente competente (pouquíssimos) e incompetente (a larguíssima maioria), por gente sã (pouquíssimos) e perversa (a larguíssima maioria), por pessoas que colocam o interesse público acima de vaidades (pouquíssimos) e outros que não têm qualquer credibilidade e apenas existem para 'amanhar o seu peixe', beneficiar-se e beneficiar meia dúzia de amigos e familiares (a larguíssima maioria).
O resultado está à vista. Somos invariavelmente espoliados e tratados como 'atrasados mentais'. E o mais triste é que, se calhar, temos desejado que assim seja e merecemos que assim seja.
Não acredito, porém, que as medidas agora tomadas sejam suficientes para salvar Portugal.
Não acredito em milagres de contenção da despesa. Gostava de acreditar. Mas não acredito. E não admito como viável continuar a procurar dar equilíbrio às contas por força do aumento da receita, que acabará por matar de vez Portugal e a esperança dos portugueses.
A voraz máquina do Estado só se domestica com pulso forte e com duras medidas: extinção de serviços, fusão administrativa de autarquias, diminuição do número de eleitos e nomeados.
Há, porém, que manter inviolável o fundamento do Estado Social, em especial Educação, Saúde e Protecção Social. Ainda assim, com necessidade de que mesmo estas funções sejam mantidas no essencial.
Estas notícias recentes da festa da Anacom, das medalhas do Fisco e outras "merdices" que enojam são apenas o reflexo da pouca sustentabilidade ética dos quadros que, com base nas pressões dos partidos, acabam por fazer-se revelar com pesada factura para o Estado e, sobretudo, demolindo os argumentos de moralidade que temos ouvido da boca de Teixeira dos Santos, ele próprio um dos 'culpados' por não ter sido capaz de, em 4 anos, controlar a despesa e por não ter tido a coragem de falar a verdade aos portugueses.
"Desta vez é que é!", parecem querer dizer-nos Sócrates e Teixeira dos Santos. Mas eu já nem acredito que desta vez possa ser. Quem me garante que, dentro de 6 meses, este ou outro Governo, não nos virão pedir mais sacrifícios, dizendo que desta feita é que fizeram mesmo as contas e que para nos salvarmos enquanto Estado-Nação precisamos de mais uns quantos sacrifícios?

domingo, 12 de setembro de 2010

#056 Equinócio do Outono

Estamos quase no Equinócio de Outono. Este ano, diz-me a wikipedia, será no dia 23, pelas 03:09 horas.
Pocuo importa. O que aqui quero ressalvar é que este fenómeno que é cíclico, não é sempre igual, não se repete exactamente na mesma medida, ano após ano. Consegue reinventar-se, transmutar-se, recriar-se e obrigar os amantes da física e da astronomia a andarem sempre à sua procura. Por várias razões assim é. Mas não deixa de ser curioso que a Natureza, o Universo, a dimensão do Cosmos infinito nos consigam ainda brindar com fenómenos que nos ensinam todos os dias que, também aqui, devemos romper com rotinas, fugir ao standard que cansa pela monotonia e mata pela falta de criatividade.
Amanhã (re)começam as aulas. No meu papel de pai, educador e transportador de crianças para a escola, retomo uma rotina. Por isso, há que criar outros momentos de vida, outras vivências, que ajudem a fazer o que tem de ser feito em ritual, com pinceladas de luz e cor noutros momentos quotidianos.
Falar é fácil - fazer é mais difícil. Mas este ano comprometo-me a tentar tudo para que o ano escolar - e por inerência, todo o Outono, Inverno e Primavera - decorram com cor e alegria, criando novas vivências, arranjando pontos de fuga ao stress da rotina e fazendo com que os "equinócios" da vida pareçam óbvios e se revelem agradáveis. Sempre!

domingo, 20 de junho de 2010

#055 Viabilizar Portugal

Portugal, tal como hoje o conhecemos, não é viável.
Não temos dimensão, não temos força produtiva, não somos capazes de nos auto-sustentarmos e de nos governarmos sem ajudas externas.
A nossa economia não possui músculo empresarial, endogenamente não temos recursos que nos tornem auto-suficientes.
Existe uma cura mas a mesma é muito dolorosa.
Aceito que se cortem salários e se aumentem os impostos, mas apenas de forma muito, muito transitória. Mas apenas com a condição de se reformar Portugal, para se pensar como poderemos ser viáveis.
Seguramente, não acredito que o possamos ser com esta realidade político-administrativa. Portugal não pode ter tantas freguesias e tantos municípios. Portugal não pode ter tantos autarcas e tantos trabalhadores de autarquias, que tendem a repetir o mesmo, replicando coisas acertadas e coisas erradas. A fase pós-25 de Abril, em que as autarquias fizeram trabalho em prol das populações, está a esgotar-se. Hoje, são outras as preocupações.
Portugal não pode continuar a alimentar uma realidade de administração central fragmentada em serviços de proximidade com tamanha pulverização, nada geradores de vantagens organizacionais e largamente consumidores de recursos humanos, técnicos, logísticos e financeiros, seja na área da educação, da saúde, da segurança social ou outras.
Portugal não pode continuar a apostar num sistema de apoio social que mantém o interior do país despovoado, as terras produtivas por cultivar e a floresta em estado de abandono, sobretudo no caso das propriedades de pequena dimensão, há muito abandonadas.
É preciso olhar para o futuro e tomar decisões. Vai haver contestação, vai haver lamentos, lamúrios e incompreensões. Mas algo tem de ser feito. Não podemos continuar a ter o 'monstro', a ser alimentado por sacrifícios cada vez maiores impostos às famílias e às gerações que se nos seguirão.
Não o fazer será crime, o que julgo ser bem pior.
Mas, para que isto seja possível, precisamos de uma maioria absoluta bem forte para ter legitimidade para agir.
Os tempos que aí vêm serão mais tortuosos. Para viabilizar Portugal impõe-se energia, determinação, clarividência e fazer tudo diferente do que tem sido feito, alternadamente, desde o 25 de Abril, que tem sido mais do mesmo, com todos os responsáveis a contribuírem para enterrar Portugal, um país que é já quase cadáver e se encontra doente em fase terminal.

#054 A propósito de José Saramago

José Saramago faleceu.
Lamento.
Mas nunca li nada dele, nem julgo que irei ler em breve. Talvez não seja inteligente ao ponto de o compreender. Talvez não reúna maturidade intelectual e cultura literária para o assimilar. Admito tudo isso.
Um prémio Nobel no curriculum e tanta gente a dizer que o homem era um génio... pois, talvez sim.
Talvez eu seja apenas comodista e deteste ter de imaginar a pontuação nos seus textos.
Comecei a ler 3 livros: O ano da morte de Ricardo Reis, o Memorial do Convento e o Evangelho segundo Jesus Cristo. Não consegui evoluir muito.
Nunca o admirei politicamente. Nunca admirei a forma como não respeitava as pessoas que não se enquadravam no seu conceito de esquerda. Nunca consegui entender os seus saneamentos nos tempos do DN.
Definitivamente, era um homem polémico, invulgar.
Portugal perdeu, mais que tudo, um embaixador. Não um grande vulto da cultura, na minha opinião.
Mas, como sempre, admito que outros pensem de forma distinta e me corrijam.
Por mim, nem luto nacional havia, nem aviões pagos pelo Estado para o trazer das Canárias.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

#053 Reflexão: O valioso tempo dos maduros

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.

Tenho muito mais passado do que futuro.

Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.

As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.

Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.

Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.

'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.

Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...

Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com

triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,

O essencial faz a vida valer a pena.

E para mim, basta o essencial!"

-

Mário de Andrade